Os destaques do primeiro turno das eleições de 2018
- Gabriel Salotti
- 10 de out. de 2018
- 7 min de leitura
Atualizado: 29 de abr. de 2021
Bolsonaro move onda conservadora em contagem expressiva de votos e é determinante para uma nova conjuntura da direita; Nordeste faz diferença

Em março de 2016, Jair Bolsonaro concedeu entrevista para o New York Times, publicada em seu canal no YouTube. Poderia ser apenas mais um compromisso político, mas tem um adendo: foi a primeira entrevista do deputado como pré-candidato à presidência da república, ainda pelo Partido Social Cristão. De lá para cá, muita coisa aconteceu.
Na época, a Câmara dos Deputados estava analisando o pedido de impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Esse processo, tal qual as eleições presidenciais de 2014, atenuou uma polarização intensa no campo ideológico brasileiro. Dois grupos distintos cada vez mais demonstrando seus ideais com agressões, seja no campo das discussões virtuais ou na vida real. Polêmicas e mais polêmicas surgiram ao longo desses anos (e manchando políticos de todo o espectro), mas o capitão reformado sempre assumiu o posto de uma das maiores vozes anti-petistas do país.
E a polarização chegou ao seu ápice. Os candidatos à presidência para o segundo turno serão Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT). Milhões de eleitores brasileiros foram às urnas nesse domingo para votar. Além disso, também foram definidos os senadores, deputados e segundos turnos para governador.
Confira os destaques do primeiro turno das eleições de 2018! -A ascensão de Bolsonaro: "anti-establishment", segurança e conservadorismo
-Haddad no segundo turno: finalmente, a união da esquerda contra o "fascismo"
-Nordeste faz a diferença na eleição presidencial
-Câmara e Senado: renovação conservadora e aumento da esquerda
-A credibilidade dos institutos de pesquisa

A ascensão de Bolsonaro: "anti-establishment", segurança e conservadorismo

Alguns fatores podem explicar a impulsão de Jair Bolsonaro ao longo de sua campanha. Para explica-los, é importante compreender o cenário brasileiro e a opinião do próprio eleitorado: em pesquisa realizada pela CNI, quando perguntados quais os grandes problemas do país, 55% dos entrevistados citou "corrupção"; 38%, "segurança pública".
Após a Operação Lava-Jato ter deflagrado esquemas de corrupção e manchado o nome de vários nomes tradicionais, criou-se uma rejeição à velha política. Bolsonaro pode ter acusações e citações em suas costas e ser parlamentar desde 1989, mas conseguiu formar uma imagem anti-establishment: crítico ferrenho ao PT (que acabou se transformando em um dos grandes expoentes de corrupção), políticos tradicionais, alguns ataques ao governo Temer...
Além disso, de fato, um dos maiores problemas do Brasil atualmente é a segurança pública. Foram quase 60 mil homicídios em 2017. E essa é justamente uma das pautas que o deputado mais fala sobre. Suas propostas nessa área representam soluções rápidas para problemas sociais complexos. Ainda por cima, algumas delas encontram amparo na opinião do eleitorado: segundo pesquisa realizada pelo Datafolha, 87% dos brasileiros são favoráveis a redução da maioridade penal. Talvez a dúvida mais obscura sobre um eventual governo Bolsonaro seja sobre as proteções e amparos judiciais às Polícias, e com isso, qual tratamento policiais teriam com pessoas de classes mais baixas.
Também é notável que o discurso conservador de Bolsonaro encontra eco em grande parte das pessoas. As opiniões do candidato em relação a causas LGBTQ+, legalização das drogas e a formação de sua imagem associada ao cristianismo são determinantes para captar eleitores que se identificam com essas características - que, no Brasil, são muitos. Alguns posicionamentos do deputado que mais deram audiência, voz e repercussão ao mesmo - ser contra o "kit gay", declarações acintosas quanto a criminosos - reforçam um perfil conservador em parte do eleitorado.
Após uma campanha marcada por muitas polêmicas e acontecimentos históricos - como um atentado sofrido -, Jair Bolsonaro está no segundo turno e deve agregar votos de Alckmin e Amoêdo na disputa pelo topo do executivo. É justo afirmar, também, que o deputado marca história como o líder de um movimento conservador no âmbito político - visto que ele também conseguiu transformar o PSL em um partido grande e com representatividade.
Haddad no segundo turno: finalmente, a união da esquerda contra o "fascismo"

Ao longo do ano, o PT sempre deixou claro que Lula era o seu candidato. O grande problema é que o ex-presidente está preso desde abril e inelegível pela Lei da Ficha Limpa. Mesmo assim, o partido fez campanha intensa com sua imagem e faltando apenas 20 dias para a eleição, Lula, da cadeia, divulgou uma "Carta Aberta ao Povo Brasileiro", pedindo o voto para Fernando Haddad e sua vice, Manuela D'Ávila - que abandonou o posto de presidenciável pelo PCdoB para integrar a chapa.
As estratégias para transferência de votos consistiram em associar, na reta final, a imagem dos dois. "Lula é Haddad, Haddad é Lula". E não poderia ter dado mais certo: segundo o Datafolha, o ex-prefeito de São Paulo tinha 4% das intenções de voto no final de agosto; no início de setembro, elas já subiram para 6% e após a carta de Lula - quando este deixou de ser uma opção nas pesquisas -, Haddad se consolidou na disputa pulando para 13% e expandindo-se até 22%, quando sua ida ao segundo turno começou a ficar iminente.
O PT conseguiu levar sua candidatura ao segundo turno. Mas isso desagradou diversas alas esquerdistas, que votaram em Ciro Gomes (PDT) sob o argumento dele ser o único presidenciável identificado com a esquerda capaz de derrotar Bolsonaro. Aliás, o próprio pedetista também desagradou parte do eleitorado ao anunciar Kátia Abreu como vice. Mesmo com esses atritos, a esquerda brasileira já está demonstrando seu apoio em peso a Fernando Haddad, ou melhor, em oposição a Jair Bolsonaro. Muitos reconhecem as mazelas do PT e são críticos ao partido, mas querem conter o avanço do "fascismo" e impedir que o país esteja o mais próximo do que nunca de uma ditadura militar desde a redemocratização.
Uma onda de direita vem inflamando o eleitorado - que já agiu elegendo o congresso mais conservador dos últimos tempos, por exemplo. É necessário que partidos de esquerda reformulem suas abordagens para conquistar votos. Pautas progressistas são muito importantes, mas têm se tornado a principal forma de abordagem da esquerda nos últimos anos. E isso não se limita apenas a partidos novos, como o PSOL e seus militantes; o próprio PT afirma os direitos a minorias com destaque no plano de governo de Haddad. De novo: não é que não sejam pautas importantes. Mas pode ser difícil dialogar com a imensa população brasileira dessa forma porque ela, em sua maioria, não enxerga esses assuntos com tanta importância quanto pautas econômicas: e aqui entra salário, contas para pagar, impostos, (des)emprego. Preocupações de pessoas simples que moram em um país desolado por crise econômica há anos. E a esquerda, historicamente, sabe discorrer sobre assuntos econômicos.
O PT mostrou sua força no Nordeste e, indiretamente, acabou impedindo um apelo de vertentes esquerdistas para levar Ciro Gomes ao segundo turno. Vão ser necessárias reformulações em alguns pontos de abordagem na campanha do petista para que ele consiga descontar a diferença de quase 20 milhões de votos de Bolsonaro. Haddad deve buscar desvincular-se de Lula para formar uma imagem própria: Gleisi Hoffmann, presidente do PT, afirmou que o ex-prefeito e ex-presidente não vão mais se ver.
Nordeste faz a diferença na eleição presidencial

De acordo com o cientista político Jairo Nicolau, as pessoas não enxergavam regiões como redutos eleitorais. Mas isso mudou em 2006, quando Lula conseguiu 60% dos votos dos eleitores nordestinos. Desde então, "foram seis turnos de vitórias avassaladoras" petistas no Nordeste, afirma Nicolau. Em 2014, por exemplo, sete em cada 10 eleitores da região votaram em Dilma (71,4%) no segundo turno.
Nas eleições de 2018, não fosse o eleitorado nordestino, fatalmente Bolsonaro seria presidente já no primeiro turno: foi a única região em que Haddad ganhou do capitão reformado, com 51% (14,5 milhões de votos). Isso reforça a militância petista presente na região, assim como o sucesso na campanha do PT em associar as imagens de Haddad e Lula.
Bolsonaro conseguiu ser vitorioso em seis das nove capitais nordestinas, mas isso não foi o suficiente. De qualquer forma, na primeira entrevista do segundo turno para o Jornal Nacional, o candidato, já visando angariar mais votos, agradeceu ao eleitor nordestino afirmando que "nunca uma oposição ao PT tinha sido tão expressiva na região".
Para o cientista político Leonardo Barreto, Bolsonaro deve buscar votos no Nordeste expondo seus ideais em defesa da família e segurança pública. A questão é que o candidato do PSL já está muito próximo da maioria necessária para ser presidente. O maior imbróglio é, justamente, o que o PT deve fazer para expandir seu eleitorado fora da região em apenas 20 dias de campanha.
Câmara e Senado: renovação conservadora e aumento da esquerda
Dilma Rousseff. Romero Jucá (MDB). Lindbergh Farias (PT). Eunício Oliveira (MDB)(que, por sinal, era o presidente do Senado). César Maia (DEM). Beto Richa (PSDB). Todos esses candidatos ao Senado não conseguiram se eleger e estão, oficialmente sem foro privilegiado, podendo assim ser julgados.
O Senado Federal também ficou com a sua composição mais fragmentada desde a redemocratização, com 21 partidos sendo representados. Isso também evidencia o anseio por mudanças do eleitor. Os três maiores partidos do país perderam senadores: o MDB tinha 18 e agora tem 11, o PT, 9 para 6, e o PSDB, 12 para 8.
O PSL de Bolsonaro terá representatividade no Senado pela primeira vez, e já conseguiu eleger quatro senadores. Além disso, o presidenciável realmente impulsionou o partido, que tinha apenas um deputado em 2014 e agora, conseguiu a segunda maior bancada da Casa: 52 (perde apenas para o PT, que tem 56). É válido destacar, também, que a Bancada da Bala, frente parlamentar favorável ao porte de armas, conseguiu eleger senadores.
Após um duro golpe nas eleições de 2016, partidos de esquerda conseguiram surpreender. Caso Bolsonaro seja eleito, será um revés digno de parar e analisar o que deu errado, nos últimos meses. Mas na disputa pela Câmara, a representatividade esquerdista foi afirmada: o PT se manteve como o partido com mais deputados (56), e o PSOL registrou aumento (de 6 para 10). O PSB também conseguiu eleger seis deputados a mais (de 26 para 32).
A credibilidade dos institutos de pesquisa
Alguns resultados das urnas contrariaram institutos de pesquisa, como as votações expressivas de Wilson Witzel (PSC) e Romeu Zema (Novo) para os segundos turnos dos governos de Rio e Minas, respectivamente, e derrotas de senadores conhecidos na política (as pesquisas apontavam vitórias de César Maia e Dilma).
Mauro Paulino, diretor do Datafolha, foi entrevistado pela GloboNews e evidenciou um aumento nas "decisões de última hora" para votar. Conforme Paulino, "foi uma onda que virou um tsunami. Principalmente, ou talvez unicamente, entre os candidatos que se atrelaram à marca Bolsonaro". Márcia Cavallari, diretora executiva do Ibope, foi entrevistada no mesmo programa e disse que os eleitores deram mais atenção às eleições presidenciais e não pesquisaram o suficiente sobre candidatos ao governo e senado. Além disso, houve um aumento nos votos brancos e nulos.
Comments